Chegando Em Casa…

Eu fiquei perturbado com aquele cheiro, aquela imagem.

Quantas pessoas se foram naquele avião…

Caminhava, mergulhado em pensamentos quando de repente um ruído, me retirou do estado de “transe”. Carlos, colocando suas mãos acima dos olhos, tentava enxergar melhor e eu quando percebi, comecei a abanar. No horizonte aquele pontinho, crescia, mais e mais, era um veículo. Paramos, Carlos, quando percebeu, olhava a nossa volta, aparentemente preocupado. Eu, ainda tentava nos sinalizar.

-Venha André, rápido!

Ele dizendo, quase levou-me de arrasto a um pequeno Bar. O dono havia somente encostado a porta. Entramos, estava tudo muito arrumado, mesas e cadeiras em seus lugares, bebidas agrupadas e ainda, uma vassoura jazia ao chão…

Fechando a porta, Carlos, deslocou-se a uma grande janela, que cedia uma visão completa da rua.

-Não demorou… Eu havia esquecido deles.

-Droga!

Perguntei a Carlos, por qual motivo as preocupações, quem eram eles, e ele somente me devolveu seu olhar. Como sempre. Ainda não me preocupava muito, mas Carlos, respirava ofegante.

-Eles devem ter ouvido, nosso estrago.

Estávamos a poucos metros do shopping. O carro aproximou-se e parou, bem em frente a “nosso” Bar! Alguns minutos mais tarde, eles voltaram de dentro do shopping e entraram, quase todos no veículo, novamente. Eles partindo, fiquei confuso…

-Eram cinco!

Eu dizendo, imaginei, que tudo isso devia ser… Obra de minha imaginação, não sei. Um som familiar, de fundo, me chamou atenção. Esperando um pouco, batidas surgiram… O que menos esperávamos, aconteceu, o carro de Carlos, começava a aparecer novamente. Os infelizes haviam perdido dez minutos para fazer o carro pegar novamente. Não sei como, para mim, ele não prestava mais.

Carlos, tocou-me no ombro e deu-me um sorriso irônico.

-O que?

O corsa andou alguns metros, afogou e apagou. O sujeito saiu do carro e bufando, chutava a lataria…

-Nunca pensei que andar na reserva fosse tão… -Risos-

Eu entendendo, soltei algumas gargalhadas…

-Essa foi por pouco, não!?

-Sim.

O homem pegou uma mochila, algumas ferramentas e xingando a todos, começou a caminhar.

-Ele fez meu dia…

Fomos caminhando para o prédio de Carlos, sempre com um sorriso no rosto. O sujeito se ferrou por completo.

Contrariando minhas expectativas, o sol se foi dando lugar para um nublado, aterrador. Por certo lado foi bom, mas enfim.

O prédio era alto, dezesseis andares, segundo Carlos. Branco, com algumas listras vermelhas e pretas. No saguão estava tudo muito vazio, aliás, havia uma camada de pó sobre os moveis.

-Quarto número cinco, décimo andar.

-Sacanagem, né!? Não pode ser.

Minhas pernas doíam, meu joelho latejava e ainda por cima uma leve dor de cabeça me atormentava. Quando percebi que estávamos sem eletricidade, sem elevador, fiquei irado. Sem opções, tomamos as escadas para ir ao décimo andar…

Subíamos em uma velocidade, inferior a de uma tartaruga, cuidando cada degrau, pois a escuridão era total e ainda por cima, meu joelho doía em dobro agora. Cada ruído retumbava, várias vezes, dando um ar assustador… Carlos, ia a minha frente, mas mesmo assim, meu coração estava disparado e minha respiração ofegante. Eu soava bicas, parecia que ia ter um treco, sei lá, um infarto. Somente em pensar nisso, fiquei preocupado…

Depois de um tempo, chegamos a porta que dava acesso ao décimo andar. Carlos, aproximou-se, pronto para abrir a porta mas alguns passos fizeram ele paralisar por completo. Ele me devolveu aquele olhar, aterrador, assustador, o qual fez eu ficar mais preocupado ainda. Eu pude sentir, houve uma descarga de adrenalina em mim, meu coração doeu uns instantes… Os passos estavam agora, bem perto a porta, eu não podia, não queria, mas tive que abrir a porta. Tomei uma posição defensiva, meus lábios, apertaram-se um contra o outro… Eu estava pronto para socar, quem quer que fosse. Respirei fundo e já com a mão na maçaneta, tentei girar lentamente, mas fez um ruído enorme. Rapidamente, estufei o peito e abri a porta com tudo. Não tive tempo de ver o que era ou quem era, mas veio rápido e saltou em mim.

Carlos, segurou-me, porque caindo, eu pararia somente no saguão. Tentei defender-me, eu socava o ar loucamente…

-Acho que não conhece, Fiona, não!?

Eu bufava furioso quando percebi que era apenas a vira-lata de Carlos. Lembrei-me daquele sujeito do veículo, enquanto xingava Carlos…

**

Pouco mais tarde, já havíamos entrado e almoçávamos ao som de um velho radio, a pilha. Incrivelmente, uma frequência de notícias funcionava perfeitamente. Era diretamente de Santa Maria. Também era captada a Rádio atlântica e outra, estavam funcionando perfeitamente. A rádio desconhecida, juntamente a rádio atlântica passavam somente músicas e a de Santa Maria, bom, era 24h por dia sobre por sobre a Guerra. Avisos aparte e turnos de notícias ao vivo…

Somente sinto falta de minhas músicas e da energia, inevitavelmente. Apenas agora percebi, que a noite passada foi a primeira no mês que não fui a festa.

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Noite Agitada!

A noite era fria. O vento rugia freneticamente… Em rajadas continuas e padronizadas. A fogueira era pequena, mas aquecia o bastante e também, lentamente, consumia a madeira já torrada. Em minha volta eu observava, contemplava a bela natureza. Estávamos perto de uma estrada secundaria, onde em nossa volta, a estrada principal perdia-se perto ao mato, alto e denso. As altas arvores completavam o cenário, verde e harmônico. A noite era estrelada, sem luar, apenas iluminada pela leve faísca que aquela pequena fogueira produzira.

Enquanto observava as nuvens, poucas, que vagavam em meio a escuridão, parei me a pensar… Desviei meu olhar a aquele homem, grisalho, que novamente em volta a fogueira, observava-a de cabeça baixa. Ele estava bem vestido. Usava uma roupa casual, camiseta preta que desaparecia diante ao casaco que usava.

Ele tinha um olhar pensativo, que fizera belo par com seu jeito sério… De repente, ele levanta e vindo em minha direção, se aproxima e tocando em meu ombro fala com um tom de voz baixo, forte e meio rouco.

-Eu acho que não nos apresentamos corretamente?

Elevei meu olhar a ele, que com um meio sorriso me observava… Não falei uma só palavra, permaneci sentado. Ele então, continua a falar.

-Meu nome é Carlos. Carlos Antunes, venho aqui de Porto Alegre também, sou jornalista… Ou ao menos era, pois acho que perdi meu emprego.

Ele, com o braço esquerdo erguido, esperava por meu cumprimento. Calmamente.

Eu então já envergonhado, pela minha falta de educação, levantei e cumprimentei-o. Sentei novamente, pois meu joelho me incomodava… Tomando partido, apresentei-me brevemente.

-Meu nome é André. Eu…

Ele me interrompe, e falando diz que me já me conhece. Digo que não lhe conheço. Ele então se explicando, fala que a emissora para onde trabalhava (ou trabalhara), estava planejando uma entrevista comigo, como tema minha carreira.

-Estávamos planejando um quadro especial, sobre artistas em crescimento no mercado nacional.

-Artistas solo… Indies!?

-Sim. Conheço você, André, pois estava em nossa lista… Eu ia contata-lo! Havia terminado algumas pesquisas, enfim…

Tornei a viajar por um momento em meus pensamentos. Então aqueles shows tão amadores do início, a quatro anos, aqueles shows no Rio, em Fortaleza, em São Paulo, haviam valido apena… Quase que por um momento deixo escapar uma lagrima de meus olhos. Era impressionante, era… Tão, gratificante!

Levantei e tornei-me a falar, o interrompendo. Com um gesto rápido, o abracei e o gradeci.

-Obrigado mesmo!

-Você… Você não sabe o quanto isso que… – É gratificante – Eu disse com um sorriso em meu rosto.

-Podemos continuar, sentados. Já não sou tão novo como você. – Pequenos Risos –

Sentamos e esquecemos (ao menos eu esqueci) do mundo afora, da iminente guerra, que dera seu passo inicial. Lentamente o assunto foi acabando e a conversa mudou de rumo. Ele começou a falar de onde era, das notícias não publicadas na mídia… Bastou pouco para eu ficar com uma bola de gelo em meu estomago.

-Nossa, agora tenho certeza que o governo encobre tudo!

Ele respondeu irônico – O mundo não é perfeito – mas já bastou para eu ficar com medo. Quanta coisa escondem, seja para não causar temor a população, para não causar caos, por questões políticas, econômicas… Caraca! Fiquei indignado.

Pensei comigo mesmo – Ferrou tudo! ESTAMOS PERDIDOS! – As ameaças, e mais ameaças… A bomba da Coreia do Norte no Brasil… O pré-sal… Isso tudo é uma pitada do que aconteceu… Do que está por vir… Interrompendo meus pensamentos, Carlos, volta a falar. Em um tom de voz mais alto, e meio Indignado.

-Você não viu nada! A bomba é aponta do iceberg. Os saques na Europa. Os protestos nos EUA. As tropas americanas na Ásia.

-O Rio de Janeiro, está fora de controle! A bomba, que atingiu parte de “Itaipu”, causou apagões não apenas aqui… Metade do Rio Grande do Sul está no escuro… O Paraguai está no escuro! Estamos com problemas com a Argentina e Uruguai.

-“Pequeno porte!” Nossa… Droga.

Ele faz uma pausa, olha aos meus pés, e logo, torna a falar novamente.

-Risos Irônicos – Colega. Você está enganado. Foi uma explosão termonuclear, a mídia encobriu. Segurança nacional. Fomos salvos apenas pelo vento. Essa ventania, esse frio. Agradeça.

-Deus me perdoe por dizer isto, mas, que povo mais estupido… Norte Coreanos. Passam mentindo, quando… Nossa!

Minha cabeça girava… Minha imaginação, tão fértil, trabalhava loucamente. Levantei, e por um momento fiquei imaginando bobagens. Tentando esquecer de tudo.

Eu sentia. Eu podia ver claramente, que Carlos esperava aquele momento, ele precisava partilhar as informações… Precisava desabafar!

Carlos, já vermelho de tanto falar, e eu aqui, mergulhado em pensamentos. De repente, Carlos para e um silencio sepulcral se forma. De fundo, algo como pás de um ventilador, girando, mecanicamente, continuamente.

A cada minuto que passou, um helicóptero passava ao fundo, e demorei a entender que era melhor ficar apenas observando.

Ao fundo, no horizonte, em meio a escura Porto Alegre, uma luz, CHAMAS!

Fiquei roxo, após pasmo, ao ver que era um avião comercial. Aos poucos, ele foi perdendo altitude e em um segundo, juntou-se ao pó.
Em meio a um clarão, e uma série de pequenos tremores e estrondos, ele tocou o solo. Não houve um segundo, os pássaros voavam desesperados, e quando percebi… Neste momento, muitos veículos surgiram na então abandonada Free-Way. Veículos militares pelo som. Era ruído de helicópteros, era algo como esteiras, carros…
Já sem palavras, virei, pasmo, apavorado e quando percebi, Carlos, me encarava. Ele não movia um musculo, não piscava e de repente, disse algo que fez minhas pernas bambearem.

-Santo Deus! ESTAMOS EM GUERRA!

Não sei se vou poder dormir. Estou preocupado, minhas mãos tremem… Escrevo em meio ao breu da noite. Carlos, ronca. Acho melhor deitar, estou prevendo um longo dia amanhã.

Só Deus sabe o que está por vir.
Que, ELE, nos guarde!
Amém.

 


 

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